(baseado na obra de Aaron Copland )
Como é que o compositor faz a sua música?
Um dos mistérios é o problema da inspiração. Mas o compositor não se preocupa tanto com isso como se imagina.
Para um compositor, compor é tão natural quanto comer e dormir ou trabalhar numa refinaria, como seria para um metalúrgico; num banco para um bancário; num escritório de contabilidade para um contabilista; num consultório de fono para uma fonoaudióloga. É o seu trabalho. A inspiração não é uma virtude especial. É mais fácil ouvi-lo se perguntar: “Será que estou com vontade de compor hoje?!†Nem há o trauma da tela branca, de que tanto falam os artistas plásticos. Não a tal da Ins-Piração.
Você pode esperar pela inspiração, mas, você não pode ficar parado, se ela não vem. O profissional senta-se à mesa ou perto de seu instrumento e compõe alguma coisa. Há técnicas e conhecimento para isso. A inspiração não passa de um sub-produto.
Hoje, com harmonias mais complexas há necessidade de estar junto ao seu instrumento de trabalho, quase sempre. Na época de Hændel ou Haydn o jogo harmônico era diferente e talvez se pudesse compor andando pelas campinas, assoviando. Muitas vezes o aluno-assistente fazia o resto. Stravinsky disse que o compositor nunca deve estar longe de sua matéria sonora. Fique perto de seu piano. Fique perto de seu computador. Do seu instrumento de eleição.
Em suma, o método não importa, mas sim o resultado.
Como é que o compositor dá inÃcio ao seu trabalho? Por onde é que ele começa? – Todo compositor começa com uma idéia musical. Idéia musical não é uma idéia literária, ou filosófica ou extra-musical. Mas, sim, é uma idéia feita de sons.
1) Pode ser que aconteça que o tema musical lhe veio à memória depois de uma associação que ele não conseguirá explicar.  O compositor escreve aquele tema e a partir desse fragmento temático ele começará a compor o resto.
2) Pode ser que o compositor pesquise o folclore de sua terra e extraia dali temas variados que ele justaporá em uma terceira via, alterando-lhe os tons, e o ritmo. Dará, enfim, uma nova roupagem ao material sonoro.
3) Pode ser que o compositor deite no papel pautado uma série de notas experienciais; motivos curtos, elementos sonoros que darão inÃcio ao processo de composição.
4) Pode ser que o processo se inicie com ritmos percussivos; tais ritmos sugerindo caminhos e dando motivação psicológica para o compositor.
5) Às vezes a idéia é um tema literário ou o tema de uma propaganda de TV.
O compositor pode anotar todas as idéias e fazer um arquivo delas. Vai guardando para uso posterior. Procura o significado emocional de seu tema. Pode testar com os amigos e obter uma resposta. Buscar a qualidade emocional do tema e saber alterá-lo no meio do caminho.
Lembrar que o “tema†é uma sucessão de notas. Para que essa sucessão de notas tenha efeito usamos as dinâmicas, alteração de volume, de velocidade, que mudará o significado da sucessão.
Se o tema é simples ele pode sugerir múltiplos aspectos.
Se o tema é complexo suas variantes serão em menor número.
Não se fala em beleza temática ou melódica. Beleza é valor cultural que muda de povo para povo. De época para época. É um conceito tribal. Cada um acha que é belo aquilo que vê e lhe dá prazer. Mas, isso pode ser doença, também.
Schöemberg declara que Belo é tudo aquilo que é expresso claramente, sem subterfúgios, sem confusões, sem esconder nada. Confusão é barulho sem critério, além de não ser arte não terá conotação com a Beleza. Portanto a frase: “Eu acho lindo!†só tem valor para quem fala e não passa de uma referência superficial. Pode denotar que houve aprovação por quem ouve. Mas, só.
Após a escolha temática e sua qualidade cabe escolher se é tema próprio para sinfonia ou câmera. Para uma sonata ou para um trabalho solista. Para rock ou para trilhas de cinema.
Tudo isso são atributos técnicos do compositor.
E a palavra tekné dos gregos significa arte para os latinos.
Da palavra tekné nos vem a palavra técnica. Ter arte é ter técnica.
Ter talento é dominar a arte. É dominar a técnica.
Há que se estudar.
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